Monstro – Renato Rezende
Tendo estreado na poesia em 1990, Renato Rezende vem atuando nos últimos trinta anos em diversas frentes, como prosador, ensaísta, artista plástico, crítico literário, tradutor, curador e editor. Poeta, foi recipiente da Bolsa para Obra em Formação da Biblioteca Nacional; e Ímpar (2005) recebeu o prêmio Alphonsus de Guimarães. Em 2008, publicou o “poema performático” Noiva, livro surpreendente que marca um ponto extremo em matéria de experimentação com a forma poética, incluindo trechos em prosa e o agenciamento de múltiplas vozes. No período seguinte, como que em reconhecimento de que um limite havia sido atingido, vieram à lume três obras de ficção, Amarração, Caroço e Auréola, em que se esgarçam as fronteiras entre poesia e prosa, lirismo e narrativa, ficcionalidade e ensaísmo. Em 2015, expôs no MAR – Museu de Arte do Rio, a intervenção urbana S.O.S. Poesia, problematizando toda uma reflexão sobre o circuito da poesia em um campo ampliado. O leitor que passa da visceralidade e da experimentação de Noiva, dos três livros em prosa e das experiências em outros suportes, pode se surpreender diante da reflexividade serena de Monstro, seu novo livro de poemas. O veículo agora é assumidamente o verso, e um verso livre que maneja com segurança e maestria a rima, a anáfora e outros recursos tradicionais – uma característica ressaltada pelo diálogo explícito com grandes clássicos da nossa modernidade, Pessoa, Drummond, Bandeira e Gullar, entre outros. Embora não tenha a estrutura unificada de Noiva, o livro é algo mais que uma coletânea de poemas individuai, pois dois temas o percorrem de ponta a ponta: a consciência de estar se aproximando da etapa final da vida e o incômodo de viver num país distópico e atormentado. A retomada de uma tradição lírica vem associada à consciência de que “é mais doloroso lidar com as coisas / do que com a representação / das coisas” – para logo em seguida, no entanto, afirmar o contato direto com a vida. Monstro é obra de maturidade desse artista inquieto e único que atende pelo nome de Renato Rezende.
Paulo Henriques Britto






